O compensado naval, a madeira maciça e os caminhos que encontramos para transformar a escolha dos materiais em linguagem.
Estamos finalizando um projeto de cozinha e outros móveis em Urubici. Ainda não é o fim desse projeto. Voltaremos à casa do cliente para os últimos ajustes e, provavelmente outros espaços para projetar.
Mas essa primeira etapa nos fez querer contar um pouco sobre o que existe por trás do processo de execução e entrega na Kabak.
O compensado naval é um dos materiais que optamos por trabalhar em nossos móveis. Gostamos dele pela resistência à umidade, a durabilidade e pelo que acreditamos em oferecer em termos de qualidade e acabamento, pois ele permite muitas adaptações.
Neste projeto, porém, o cliente nos trouxe um novo desafio: ele gostaria que as bordas das camadas dos móveis não estivessem aparentes, pensamos então que se a parte do “wafer” poderiam ser filetadas com a mesma madeira maciça do tampo que estávamos construindo para a ilha da cozinha, isso ficaria interessante.
Como é uma técnica que ainda não fazia parte do nosso repertório e não sabíamos inicialmente como faríamos essa união entre a madeira maciça e o compensado, partimos em busca de informações. Estudamos, testamos e conseguimos chegar em uma boa forma de colar este fino pedaço de madeira no compensado naval.
Observamos o comportamento dos materiais e fomos encontrando nosso próprio caminho até chegar a uma solução que funcionasse para a estrutura e para o acabamento que queríamos.
O resultado foi incrível e gostamos muito. O acabamento em óleo natural destacou um pouco mais o filete sobre o compensado. O filete criou uma transição delicada entre a camada aparente do compensado e a madeira maciça. E, ao mesmo tempo, mantém a identidade do material, sem tentar transformá-lo em outra coisa.
A partir desta demanda descobrimos uma nova habilidade, podemos oferecer nossos móveis em compensado naval de duas maneiras: com as bordas aparentes, para quem gosta de ver e valorizar as camadas da chapa, ou com filetamento em madeira maciça, criando um encontro mais delicado entre os materiais.
Para esta instalação saíram de Florianópolis para Urubuci quatro mulheres. que por cinco dias trabalharam pesado com nivelamento, montagem resolução de todos aqueles problemas que aparecem quando o móvel encontra a realidade da construção.
O balcão principal e a parede de chegada apresentaram diferenças de nível que precisavam ser resolvidas antes que conseguíssemos colocar o restante da cozinha. Só aqui foram quase 24h pensando, desmontando, ajustando e encontrando soluções.É uma parte da marcenaria que quase nunca aparece nas fotografias.O móvel chega pronto na imagem final, mas antes disso existe muito exercício de observação, olhar responsável, conversa e insistência em fazer um trabalho bem acabado.
Nós pensamos muito nisso porque afinal é sempre muito tempo dedicado a um acabamento das peças, ao esquadramento e aos detalhes. Então não podemos deixar isso assim.
Também há aquelas coisas que aprendemos no caminho. Clara, por exemplo, não sabia instalar puxadores mas queria ajudar . Carmem confiou e demonstrou a técnica, e funcionou. Ela instalou 33 puxadores em uma tarde.
Diana, com seu olhar dinâmico e atento, também teve um papel importante durante estes dias . Muitas vezes, uma segunda percepção diante de um problema muda a maneira de enxergá-lo. É sempre enriquecedor receber segurança em algumas decisões, é a base para seguirmos caminhando quando alguma solução ainda não está evidente.
Acredito que esta é uma das coisas mais bonitas do nosso trabalho.
Em Urubici, não fomos sabendo resolver tudo. Mas estávamos determinadas a trabalhar juntas, também a não exigir de nós mesmas uma perfeição impossível.
Ser mulher em um campo de trabalho historicamente ocupado por homens traz um peso que nem sempre é fácil perceber de fora. Às vezes existe uma cobrança silenciosa para provar que sabemos, que conseguimos, que damos conta.
O aprendizado é sobre trocar um pouco dessa cobrança pela confiança.Confiar no nosso trabalho, confiar umas nas outras e entender que aprender alguma coisa durante o processo não diminui a nossa capacidade. Faz parte dela.
Até o pequiá nos surpreendeu.
No começo, tínhamos receio de que o tom da madeira, depois do acabamento, não conversasse bem com o compensado naval aparente. No final, o encontro entre os dois materiais ficou lindo.
Essa mistura de materiais, de possibilidades de resoluções representa bem o que buscamos na Kabak: materiais honestos, desenho cuidadoso e espaço para que cada matéria-prima apareça como ela é.
A cozinha ainda não está pronta. Na próxima etapa, entram os ajustes finais da ilha, os acabamentos e a instalação do banheiro, onde também mostraremos o processo aqui.
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